Até os 5 anos, é esperado que a criança já consiga falar corretamente os sons do Português Brasileiro.
Observa-se que, em alguns casos, ela quer expressar alguma coisa e as suas palavras não dão conta. Por isso, ela vai usar outras partes do corpo, e não somente a boca. Sabemos que "o corpo fala"...
Por outro lado, o controle do esfíncter vesical, tanto diurno como noturno, também deve ser adquirido até os 5 anos.
A enurese (eliminação involuntária e inconsciente da urina) é uma dificuldade comum a muitas famílias desde a Antiguidade. Trata-se de um tema abordado por especialistas de diversas áreas, e está associado a muito stress e sofrimento.
Em minha prática clínica, atendi a muitas crianças que apresentavam problemas de linguagem oral (como, por exemplo: falar errado, falar pouco, gagueira, perda da voz), mas que também apresentavam o quadro enurético. É interessante apontar que que nem sempre essa era uma queixa trazida imediatamente pelos seus pais, e sim somente depois de um tempo em que já estávamos em terapia de fono.
Por estar sempre interessada na pessoa como um todo (foram muitas as situações em que os pais me perguntavam se eu era Fono ou Psicóloga...), eu acreditava que fazer xixi na cama após essa idade poderia ser considerado uma linguagem. Diante dessa convicção, eu me perguntava se haveria alguma relação entre tais ocorrências.
Decidi estudar o tema com maior profundidade, levando essa questão para o Mestrado em Fonoaudiologia. Para isso, optei por uma abordagem bio-psíquica, que considera linguagem, corpo e psiquismo como sendo instâncias indissociáveis.
Mergulhei no assunto, e, após dois anos de estudo intenso, constatei que, de fato, há diversas relações entre problemas de linguagem oral e a enurese em crianças.
Mas, por que estudar essas co-ocorrências em um Programa de Fonoaudiologia?
Primeiro, porque necessariamente eu estaria partindo de crianças com problemas de linguagem oral, que são o objeto do meu experiente percurso clínico. Em segundo lugar, essa escolha se deve ao meu desejo antigo e recorrente de oferecer uma abordagem inovadora em Fonoaudiologia, ou seja, considerando o paciente para além da boca, e apontando que ali existe um ser constituído pela linguagem... ser este que sofre, mas nem sempre consegue expressar verbalmente o seu sofrimento.
Uma vez que o trabalho já foi concluído (e com sucesso!!!), fico muito feliz: não somente por ter validado a minha hipótese, mas também pensando na contribuição científica desse estudo aos pais, profissionais da área da Saúde, educadores e demais interessados.
Como Fonoaudióloga, afirmo que uma intervenção fonoaudiológica pode auxiliar a criança na remissão de seu sintoma enurético. Mas... por que isso é possível?
A resposta é simples: por considerar que tudo é linguagem!!!
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